Oásis

abril 30, 2009

As horas atropelaram-se despercebidas. A lua governava alta a noite quando Miguel encontrou a primeira migalha de pão a sessenta centímetros de seus pés, ao lado do coreto, invisível aos passantes mas portadora de um brilho incomum e magnético aos seus olhos. Regido por um estranho ímpeto, Miguel se livrou da paralisia habitual de todos os dias de prostração no banco branco da praça central e se procedeu a levantar, dando partida naquele velho corpo de ossos e músculos resmungões. Miguel foi de encontro à migalha brilhante, talvez movido pela inércia dos tempos, talvez apenas seguindo a lenta marcha dos próprios pés, talvez sob a desculpa de que não tinha mais nada a se fazer, mas movido por uma força inexorável, insciente de suas vontades e (poucas) obrigações. Examinou a migalha atentamente de perto, não compreendendo a desconsideração dos que passavam. Percebeu uma outra migalha, alguns centímetros adiante, para além do coreto. Seguiu o par de migalhas revelando uma terceira migalha, ultrapassando os limites da praça central, na faixa de pedestres. Três migalhas brilhantes formavam oficialmente um caminho para Miguel, que decidiu seguir a pequena trilha, repetindo para si que era um caso de mera curiosidade, um passatempo inusitado. Àquela pequena trilha de três somaram-se mais migalhas em um caminho brilhante em direção ao estacionamento ao lado da padaria e os passos de Miguel evoluíram de trote hesitante à marcha constante de movimentos determinados. Seguia uma trilha de migalhas de pão. Riu-se.

O caminho se esgueirou pelo beco escuro detrás da porta dos fundos do estacionamento em direção à Grande Avenida e Miguel seguiu a trilha sem vestígios de qualquer pestanejo, desafiando com passos de empáfia o trânsito irrefreável. Havia descoberto algo especial, decerto havia naquelas migalhas algum tipo de encanto secreto que afugentava os pombos e outros aventureiros. Ora, a trilha se comunicava com Miguel, apontando um inescapável caminho, contornando o Conjunto Habitacional, penetrando os fundos de um boteco amarelo e seguindo, seguindo, seguindo. Mesmo sem identificar com precisão de onde extraia forças e vontades para continuar seguindo, Miguel especulou se a pujança de seu caminhar era alimentada pelo desejo de se chegar a um destino impressionante. Um oásis. Miguel recapitulou todos os destinos espetaculares que lhe poderiam compensar a longa marcha: potes de ouro no fim do arco-íris, casas de doces, o Céu. Destinos que eram recompensas. O caminho de migalhas de pão costurava o caos urbano. Miguel caminhava.

Passadas as fachadas cinzas dos prédios públicos, a trilha de migalhas perfurava a entrada central da Igreja. Miguel estremeceu. Seguiu em frente, serpenteando os genuflexórios, circundando o altar e todos os santos que lhe fitavam, severos. A trilha continuava, saindo pelos fundos dos aposentos do padre, rumo a rua cada vez mais desertas. E Miguel continuava, continuava. Deixava para trás as luzes ofuscantes da cidade, rumo à escuridão incerta da periferia, guiado apenas pela luminescência de sua trilha. Passou por um campo de futebol. Circulou barracos. E seguiu. Os primeiros raios de sol da alvorada iluminaram a verdade solenemente ignorada do cansaço de suas pernas, da sua fome e sede. Miguel irritou-se. A cada passo, uma extração irreversível de forças. A cada passo, a sucessão aterradora de migalha, após migalha, após migalha. Tropeçou no caminho lamacento e mal teve forças para se levantar. As pernas falhavam. O caminho seguia tortuoso, por entre as pedras e escombros dos barracos, atravessando um córrego marrom e sacos de lixo, adentrando a mata hostil. O sol da manhã se fixava no tempo, inabalável. Imaginando monstros, montanhas e desertos, Miguel aliviou-se ao perceber que a trilha passava a mata para adentrar na civilização novamente, na periferia, invadindo barracos e marginando um córrego lamacento. Esqueceu-se de como tudo havia começado, esqueceu-se daquele ímpeto fortificante de antes, dos destinos e recompensas. Miguel seguia, apenas.

Miguel atravessou a periferia reconhecendo ao longe a cidade se aproximando, gradativamente. As migalhas o conduziram dia adentro na medida em que os sons urbanos se avolumavam novamente, como um zumbido distante de um pernilongo. O caminho seguia, inabalado pelas dores nos joelhos de Miguel, que furtavam a veemência de seu caminhar a cada migalha. Ao chegar às ruas principais, Miguel sucumbiu ao próprio peso e ao peso do sol e engatinhou quarteirões inteiros, vagarosamente. Algo incerto o impedia de parar. Não, não poderia parar, depois de tanto tempo. Fora de cogitação – ruminava dentro de si – fora de cogitação. Desafiando a exaustão, seguiu cambaleando o caminho que se esquivou da Igreja, marginando os fundos cinzas dos prédios públicos, serpenteando jocosamente pelas ruas e culminando na entrada de um boteco amarelo na medida em que o sol se punha. A trilha de migalhas de pão seguia pela porta da cozinha do boteco amarelo, revelando uma passagem que o ligava ao Conjunto Habitacional, do qual se livrou pelos fundos contornando prédios em direção ao trânsito violento da Grande Avenida, desafiando os carros com ousadia suicida. Miguel percorreu a trilha que se aprofundava pelas partes escondidas da padaria, esgueirando-se pelo labirinto de fornalhas até se libertar do calor pela porta da frente, atravessando a faixa de pedestres rumo à Praça Central, pisando em falso rumo aos limites do coreto. As migalhas atravessavam o coreto iluminadas pela luz da lua e Miguel marchou a passos invertebrados, sempre seguindo, sempre seguindo. A trilha terminava a cento e vinte centímetros do coreto, em um banco branco de praça situado próximo à margem oposta à Grande Avenida. Não avistando mais nenhuma migalha para além do banco da praça, Miguel fechou os olhos em silêncio. Sentou-se e esboçou um sorriso torto. Permitiu-se o conforto da prostração e fitou surpreso a lua governante do alto. Já era noite, afinal. As horas atropelaram-se despercebidas.

 

O coelho

abril 20, 2009

O coelho desafiou a uniformidade verde dos campos de meu pai com a agilidade imprevista de um raio branco, um ponto branco de neve insólita e deslocada que se projetou quicando na relva. O pânico e a velocidade do animalzinho embaçavam suas formas, indiferenciadas pela minha visão em um momento tão fugidio que mal posso atestar sua realidade. Como uma resposta imediata, meus pés fincaram-se no chão e minhas mãos apertaram o arame com a ansiedade controlada de um predador. Não posso dizer se fechei ou apenas pisquei os olhos, quando percebi a presença aproximante e desgovernada do bicho, rindo de sua cinética ignorante ao mesmo tempo em que rememorava os ensinamentos de meu pai. Filho – dizia, fitando algo pela janela após o quinto cigarro e a terceira dose – um bom caçador sempre conhece a rotina e os modos de sua presa como se fossem seus. Com uma pequena risada, sacudi as lembranças da cabeça como quem se livra do excesso de umidade. O coelho passou por mim.

 

O coelho passou por mim imprevisível. Talvez zombando da minha lentidão ou intuindo minha inexperiência, desviou-se do arame preso com um espasmo violento, mas calculado. Passou por mim e depois de percorrida uma curta distância, parou e confrontou meu rosto perplexo com a vermelhidão de seus olhos orgulhosos. Compreendi, naquele instante, o que fugia aos olhos dos predadores, ocupados demais em captar e simular os modos de suas presas. Afinal, eu já deveria saber que tal exercício também era prática das presas, e que pressentida a incerteza e ansiedade de seus caçadores, coelhos poderiam agir como cães de caça. É bem verdade que o animal não me atacou como um cão de caça. Mas parado ali, atraindo-me magneticamente com seu olhar vermelho, ele sorvia a arrogância dos leões. Lembrava-me de velhos predadores cujo espírito caçador era confrontado diariamente pelos traumas de seus corpos desgastados, confinados a um eterno olhar pela janela, entre doses e cigarros, em uma procura cansada (mas necessária) por novos coelhos.  

  

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